Para falar sobre estratégias em família em tempos de quarentena, o Carrossel do Cirilo recebeu Ticiane Barros, psicopedagoga e terapeuta especializada em família (terapia familiar sistêmica, constelação familiar sistêmica individual e orientação para pais e famílias).

Ticiane explica que, nesse cenário, não há fórmulas prontas, mas troca de experiências e sugestões. Todos estão vivendo o mesmo problema, não há como olhar de fora. Vivemos uma sensação de luto coletivo em relação a um mundo (hábitos antigos) que perdemos.

LUTO ANTECIPADO E AS FASES DO LUTO

Nesse sentido, perdemos nossa sociabilidade. Somos seres sociais e não estamos nos socializando da forma como estávamos acostumados. Estamos passando por lutos em escala micro (em casa) e em escala macro (o Brasil e mundo passando por essa experiência) e é importante acolher esse sentimento.

Tudo isso faz com que vivamos uma experiência de luto antecipado: não sabemos o que vem pela frente, mas ficamos imaginando e isso causa muita angústia. Ticiane identifica as cinco fases clássicas do luto durante a pandemia:

Negação: pessoas diziam que o coronavírus não ia chegar ao Brasil ou que era só uma gripezinha.
Raiva: comércio fechado amargando prejuízos e querendo reabrir, pais irritados porque as crianças não estavam tendo aula.
Barganha: se ficarmos em casa por um curto período, daqui a pouco tudo voltará ao normal.
Depressão: o cenário previsto de volta rápida à normalidade não aconteceu.
Aceitação: o cenário é esse, temos que nos adaptar até passar. O que podemos fazer? É aí que ganhamos força.

Essas fases não são lineares. Algumas pessoas passam por elas mais rapidamente, algumas pulam fases, etc. No mundo empresarial, por exemplo: algumas empresas já se reiventaram e ofereceram delivery, mudaram processos enquanto outras ficaram muito mais tempo em negação.

O PRIMEIRO PASSO: AUTOCUIDADO

Estamos todos no mesmo barco. O primeiro passo é reconhecer o que está acontecendo e saber o que podemos fazer. Só assim podemos assumir nossa responsabilidade e entender o que é possível fazer com os recursos que cada um dispõe.

Há dias em que estaremos bem enquanto em outros estaremos tristes. O importante é equilibrar. Não tem problema ficar triste, acolha o sentimento, mas saiba que em outros dias você estará melhor. Para fazermos algo, é preciso estar bem na medida do possível. É claro que diante de tantas notícias não vamo ficar 100% bem. Por isso, a ideia é estar bem até onde for possível.

O primeiro passo é a gente se acolher e se cuidar da melhor maneira possível. Sem idealizações ou receitas fixas. Não há receitas porque somos diferentes e somos muitos. Mas uma coisa básica é a gente se cuidar. Se não estamos bem, não conseguimos fazer bem a quem está conosco. Só conseguimos doar aquilo que sobra, que está transbordando em nós. Se estamos na falta, não conseguimos nos doar.

Também é importante construir redes, nos conectar com pessoas que nos fazem bem e podem nos acolher nos momentos em que precisamos. Assim quando um estiver mal, pode ser acolhido por quem esteja bem e este o ajudará a melhorar. Mostre-se vulnerável e peça apoio quando necessário. Da mesma forma, apoie quando estiver bem e as pessoas estiverem vulneráveis.

NOMEIE E EXPRESSE SUAS EMOÇÕES

Saber identificar as emoções é importante para gerar movimento. Além disso, é importante comunicar às pessoas o que você está sentindo. Está tudo bem falar com os filhos que há dias em que você está preocupado ou com medo.

Escute também como os membros da família estão e aproveitem para abrir um canal de comunicação e tratar desses sentimentos. Dessa forma, é possível cuidar para que um medo não fique muito grande.

Você também pode falar com as crianças, na linguagem delas, sobre esses sentimentos e perguntar o que elas estão sentindo de não ir a escola nem ver os amiguinhos e explicar que isso vai passar e que vocês vão conseguir superar juntos.

O LADO BOM

Ticiana ressalta que existem lados positivos e negativos nesse cenário de pandemia. Entre os aspectos positivos estão a possibilidade de pais e filhos conseguirem almoçar juntos todos os dias, por exemplo.

A terapeuta conta também que criou hábitos positivos, como tomar café virtualmente com a mãe todas as manhãs por videoconferência. Você pode fazer ligações mais longas e ficar junto com as pessoas que gosta por vídeo.

Como dica final, Ticiana recomenda atividades conjuntas que expressem sentimentos, como pintar, ouvir música e dançar. Essas atividades ajudam a expressar as emoções sem necessariamente ter de comunicar oralmente, pois às vezes não queremos ou não conseguimos falar.